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Djalma Santos (1929-)

Djalma Santos é poesia doce e concreta
um perfeitíssimo esteta


No Brasil, há o preconceito de não ter preconceito racial. Isso é claro e inconfesso. E está no futebol que é, disparado, o mais retinto dos esportes. Na Copa de 1958, Didi – único negro a jogar desde o início da competição – só entrou porque Moacir, o reserva, também era preto. E, sem base científica alguma, a cartolagem pensava: Os negros não têm controle emocional. Várias vezes, Djalma Santos – o ala que anulou o sueco Skolund, o melhor ponta dessa Copa do Mundo – foi vítima de racismo. Certa vez, em um estádio paulista, alguém o xingou de crioulo sujo. E, quando ele fazia um arremesso manual, o mesmo cretino que o apupava lhe atirou algo, e ao fazê-lo também sacudiu junto, sem querer, um anel. Sereno, Djalma recolheu a peça, foi ao alambrado, entregou-a ao racista e disse sorrindo um elegante “tudo bem”.

Esse paulistano – nascido Dejalma dos Santos, em 27 de fevereiro de 1929 – fez-se atleta profissional graças a um acidente que o impediu de ser piloto de avião – pelo gosto do pai, que foi soldado de polícia, ele seria militar. Djalma era operário calçadista, estudava à noite para ser aviador civil e batia bola em times do bairro da Quarta Parada, em São Paulo, capital. Mas Santos, como o tratavam, queria mais. E a Portuguesa de Desportos o fez center-half em 48. Dessa posição, ele se deslocou para a lateral-direita com a chegada de Brandãozinho ao clube do Canindé. Outros dessa Lusa eram Julinho e Pinga. Em 1952, os quatro deram ao Brasil o campeonato pan-americano jogado no Chile, um certame nacional de seleções estaduais aos paulistas e o Rio/São Paulo – este, bisado em 55 – à própria Portuguesa do treinador Osvaldo Brandão.

Desde cedo, Djalma se notabilizou como o primeiro brasileiro a fazer da cobrança de lateral um cruzamento – e os atacantes do seu time corriam para a área adversária a fim de escorar o passe, contando sempre com a força de suas mãos. A essa altura, o ídolo negro da Lusa do Canindé já era o titular absoluto da lateral-direita da seleção nacional. E aprimorava o saudável hábito de ser um beque ofensivo, indo com prudência, agilidade e precisão ao ataque.

Por isso, em 1954, na Suíça, mesmo com o escrete derrotado, Djalma Santos foi eleito o maior ala do mundo – sendo o único brasileiro a entrar na seleção dessa Copa. E se revelara batedor de pênalti – contra a Hungria, perdendo por 4 a 2, o primeiro gol brasileiro fora dele, de penalidade máxima. Em 58, na Suécia (onde só fez o último jogo – exatamente contra os donos da casa –, foi campeão e escolhido como o zagueiro-direito do Mundial), Djalma esbanjou lealdade, disciplina, saúde e rapidez. Nele, sobretudo, sobressaía a técnica apurada, que o levava a dribles dentro da pequena área, a fazer embaixadas e outros lances de efeito. Para coroar esse 1958, ele casou com Mercedes, que lhe daria uma filha, hoje médica.

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O Brasil no Mundial de 1962. A partir da esquerda, de pé: Aimoré Moreira (técnico) Djalma Santos, Zito, Gilmar, Nilton Santos, Zózimo, Mauro e Paulo Amaral (preparador físico); agachados: Mário Américo (massagista) Garrincha, Didi, Vavá, Amarildo e Zagallo.

Na Lusa, Djalma ainda é visto pela crítica como o craque do clube no século 20. E lá ficou até maio de 1959, data em que se transferiu para o Palmeiras. No Parque Antarctica viveu o auge da carreira. A começar pelo título estadual no ano de estréia. A seguir, em 60, também vencendo a Taça Brasil, feito repetido por ele e o clube em 1967. Assim, quando seu nome foi visto entre os que iam a Copa do Mundo de 62, o povo o escalou para ocupar uma das alas. E o técnico Aimoré Moreira, para trazer o troféu de bicampeão, satisfez a vontade geral. Nessa Copa, pela terceira vez consecutiva, Djalma seria aclamado o lateral-direito do planeta. Com apenas 1,71 m de altura e aos 33 anos, ele era ágil e ótimo no cabeceio, quase não perdendo bolas aéreas. Ainda atuou duas vezes no Mundial de 1966, na Inglaterra, encerrando a estada no escrete em 68, com 98 jogos oficiais – Taffarel e Dunga foram os jogadores brasileiros que mais vestiram a camisa do selecionado nacional, até 2004.

Além desses títulos, eis outros ganhos por Djalma no Palmeiras: os estaduais de 1963 e 66, torneios externos (México e Itália em 63) e nacionais (Rio/São Paulo/65 e Roberto Gomes Pedrosa/67) – este, o atual campeonato brasileiro –, sendo vice da Libertadores da América de 60 e 68. Afora Djalma, no alviverde paulistano cintilavam as estrelas de Ademir da Guia, Julinho, Valdir de Moraes e Djalma Dias – nomes que fazem sonhar. De 1959 a 68 – o tempo que ele esteve no Parque Antarctica – existiu a primeira Academia palmeirense, que era de fato a única equipe a se contrapor àquele supertime santista de Pelé, Carlos Alberto, Gilmar, Mauro, Pagão (ou Coutinho) e companhia.

Após a 491a. partida pelo Palmeiras, em 68, Djalma quis parar. No entanto, a pedido do Atlético Paranaense adiou o intento. E foi para Curitiba, onde – com Bellini, seu parceiro de escrete, também em fim de carreira – nesse ano fez-se vice-campeão no Paraná. E em fevereiro de 1971, após fazer rubro-negro o título estadual de 70, parou efetivamente de jogar. Ano seguinte, Djalma Santos foi técnico do próprio Atlético. E a seguir treinou times na Bolívia e no Peru. Pela experiência acumulada, esse treinador viu, desde então, que os pupilos ideais eram as crianças e aceitou ir para a Arábia Saudita para ensinar futebol aos meninos. O mesmo fazendo na Itália, até a repatriação.

No Brasil, ele só soube o quanto era ídolo depois de ter deixado as canchas. E a partir de uma enquete feita pelo Palmeiras com 10 mil torcedores. Djalma teve quase 75% dos votos como o lateral-direito alviverde de todos os tempos – ficando Cafu com 19% e em segundo plano. Outro reconhecimento: em júri popular, a aguerrida massa atleticana deu a maioria dos votos para fazê-lo o melhor atleta do rubro-negro paranaense no século que passou. E no resto do mundo Djalma Santos ainda é lembrado.

Trabalhando com crianças – em especial, carentes –, ele virou funcionário da mineira Prefeitura de Uberaba, onde coordenaria as escolinhas de futebol. Lá, com a eficácia que o identificara, tocou o projeto Bem de rua, bom de bola, reunindo garotos e garotas pobres da cidade. Porém, Djalma condicionando: só joga quem estuda. E nisso residiu o mérito dessa sua lida socialmente gratificante.

Mesmo na velhice, o ex-craque não parou de bater bola. Na folga dos domingos, ele reunia outros coroas para um racha. Após a pelada, pescando no Rio Grande, falava solidário que as relações de trabalho no futebol ainda são de senhor e escravo. Ou dizia causos do seu tempo. Um deles, de 1951, quando caiu de uma mureta no mar de Bósforo, na Turquia, e deu vexame. No entanto, quase não caía em campo, era bem-posto, com preparo físico. E esbanjou disciplina: Djalma Santos jamais foi expulso de campo. Por temperamento e categoria, ele não precisava apelar.

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